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O NASCIMENTO DO PRAZER (trecho)


O prazer nascendo dói tanto
no peito que se prefere sentir
a habituada dor ao insólito prazer.

A alegria verdadeira não tem explicação possí­vel,
não tem a possibilidade de ser
compreendida - e se parece com
o iní­cio de uma perdição irrecuperável.

Esse fundir-se total é insuportavelmente
bom - como se a morte fosse o nosso
bem maior e final, só que não é a morte,
é a vida incomensurável que chega a se
parecer com a grandeza da morte.

Deve-se deixar inundar pela alegria
aos poucos - pois é a vida nascendo.

E quem não tiver força,
que antes cubra cada nervo
com uma pelí­cula protetora,
com uma pelí­cula de morte para
poder tolerar a vida.

Essa pelí­cula pode consistir em
qualquer ato formal protetor,
em qualquer silêncio ou em várias
palavras sem sentido.

Pois o prazer não é de se brincar com ele.

Ele é nós.


Autor: Clarice Lispector

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 15




 


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