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Amo Poesias › Noturno (Cecília Meireles)


  

Noturno


Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?


Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?


Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?


Que valem as pálpebras da tí­mida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?


O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.


E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.


Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.


Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e lí­mpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noçíµes de água e de primavera nas tranqí¼ilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.


Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.


Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!


Autor: Cecília Meireles

Adicionado em 27/03/2009  |  Cliques: 10




 


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