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Amo Poesias › Loura (Cesário Verde)
Loura
Eu descia o Chiado lentamente
Parando junto às montras dos livreiros Quando passaste irônica e insolente, Mal pousando no chão os pés ligeiros. O céu nublado ameaçava chuva, Saía gente fina de uma igreja; Destacavam no traje de viúva Teus cabelos de um louro de cerveja. E a mim, um desgraçado a quem seduzem Comparações estranhas, sem razão, Lembrou-me este contraste o que produzem Os galões sobre os panos de um caixão. Eu buscava uma rima bem intensa Para findar uns versos com amor; Olhaste-me com cega indiferença Através do lorgnon provocador. Detinham-se a medir tua elegância Os dandies com aprumo e galhardia; Segui-te humildemente e a distância, Não fosses suspeitar que te seguia. E pensava de longe, triste e pobre, Desciam pela rua umas varinas Como podias conservar-te sobre O salto exagerado das botinas. E tu, sempre febril, sempre inquieta, Havia pela rua uns charcos de água Ergueste um pouco a saia sobre a anágua De um tecido ligeiro e violeta. Adorável! Na idéia de que agora A branda anágua a levantasse o vento Descobrindo uma curva sedutora, Cada vez caminhava mais atento. Mas súbito parei, sentindo bem Ser loucura seguir-te com empenho, A ti que és nobre e rica, que és alguém, Eu que de nada valho e nada tenho. Correu-me pelo corpo um calafrio, E tive para o teu perfil ligeiro Este olhar resignado do vadio Que fita a exposição de um confeiteiro. Vi perder-se na turba que passava O teu cabelo de ouro que faz mal; Não achei essa rima que buscava, Mas compus este quadro natural. Autor: Cesário VerdeAdicionado em 02/10/2009 | Cliques: 278
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