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Deixei de ser aquele que esperava


Deixei de ser aquele que esperava,

Isto é, deixei de ser quem nunca fui...

Entre onda e onda a onda não se cava,

E tudo, em ser conjunto, dura e flui.



A seta treme, pois que, na ampla aljava,

O presente ao futuro cria e inclui.

Se os mares erguem sua fúria brava

í‰ que a futura paz seu rastro obstrui.



Tudo depende do que não existe.

Por isso meu ser mudo se converte

Na própria semelhança, austero e triste.



Nada me explica. Nada me pertence.

E sobre tudo a lua alheia verte

A luz que tudo dissipa e nada vence.


Autor: Fernando Pessoa

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 49




 


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