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Amo Poesias › Coliseu (Cecília Meireles )


  

Coliseu


Cem mil pupilas houve:
— cem mil pupilas fitas na arena.
Os olhos do Imperador, dos patrí­cios,
dos soldados, da plebe.


Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.


E os olhos da fera acossada,
do lado oposto.
Os olhos que ainda brilham fulvos,
agora, na eternidade igual de todos.


Cem mil pupilas:
— ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas,
vagas, severas, lí¢nguidas . . .
Cem mil pupilas vêem-se, na poeira da pedra deserta.


Entre corredores e escadas,
o cavo abismo do úmido subsolo
exala os soturnos prazeres da antiguidade:


Um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
— ó duras vozes romanas! —
um quente sangue vem golfando,
— ó negro sangue das feras!
um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.
— í“ surdo nome trêmulo da morte!


(Não cairão jamais estas paredes,
pregadas com este sangue e este rugido,
a garra tensa, a goela arqueada em vácuo,
as cordas do humano pasmo sobre o último estertor . . .)


Cem mil pupilas ficam aqui,
pregadas nas pedras do tempo,
manchadas de fogo e morte,
no fim do dia trágico,
depois daquela ávida e acesa coincidência
quando convergiram nesta arena de angústia,
que hoje é pó e silêncio,
esboroada solidão.


(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.
E os sorrisos perderam-se, fúteis.
Sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)


Autor: Cecília Meireles

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 4




 


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