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Canto X (Parte III)




101
«Olha Dófar, insigne porque manda
O mais cheiroso incenso pera as aras;
Mas atenta: já cá destoutra banda
De Roçalgate, e praias sempre avaras,
Começa o reino Ormuz, que todo se anda
Pelas ribeiras, que inda serão claras,
Quando as galés do Turco e fera armada
Virem de Castelbranco nua a espada.

102
«Olha o Cabo Asaboro, que chamado
Agora é Moçandão dos navegantes.
Por aqui entra o lago que é fechado
De Arábia e Pérsias terras abundantes.
Atenta a ilha Barém, que o fundo ornado
Tem das suas perlas ricas e imitantes
A cor da Aurora; e vê na água salgada
Ter o Tí­gris e Eufrates hí¼a entrada.

103
«Olha da grande Pérsia o império nobre,
Sempre posto no campo e nos cavalos,
Que se injuria de usar fundido cobre
E de não ter das armas sempre os calos.
Mas vê a ilha Gerum, como descobre
O que fazem do tempo os intervalos,
Que da cidade Armuza, que ali esteve,
Ela o nome despois e a glória teve.

104
«Aqui de Dom Filipe de Meneses
Se mostrará a virtude, em armas clara,
Quando, com muito poucos Portugueses,
Os muitos Párseos vencerá de Lara;
Virão provar os golpes e reveses
De Dom Pedro de Sousa, que provara
Já seu braço em Ampaza, que deixada
Terá por terra, í  força só de espada.

105
«Mas deixemos o Estreito e o conhecido
Cabo de Jasque, dito já Carpela,
Com todo o seu terreno mal querido
Da Natura e dos díµes usados dela;
Carmí¢nia teve já por apelido.
Mas vês o fermoso Indo, que daquela
Altura nace, junto í  qual, também
Doutra altura, correndo o Gange vem?

106
«Olha a terra de Ulcinde, fertilí­ssima,
E de Jáquete a í­ntima enseada;
Do mar a enchente súbita, grandí­ssima,
E a vazante, que foge apressurada.
A terra de Cambaia vê, riquí­ssima,
Onde do mar o seio faz entrada.
Cidades outras mil, que vou passando,
A vós outros aqui se estão guardando.

107
«Vês corre a costa célebre Indiana
Pera o Sul, até o Cabo Comori,
Já chamado Cori, que Taprobana
(Que ora é Ceilão) defronte tem de si.
Por este mar a gente Lusitana,
Que com armas virá despois de ti,
Terá vitórias, terras e cidades,
Nas quais hão-de viver muitas idades.

108
«As proví­ncias que entre um e o outro rio
Vês, com várias naçíµes, são infinitas:
Um reino Maometa, outro Gentio,
A quem tem o Demónio leis escritas.
Olha que de Narsinga o senhorio
Tem as relí­quias santas e benditas
Do corpo de Tomé, barão sagrado,
Que a Jesu Cristo teve a mão no lado.

109
«Aqui a cidade foi, que se chamava
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os ídolos antigos adorava,
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Tomé vinha pregando, e já passara
Proví­ncias mil do mundo, que ensinara.

110
«Chegado aqui, pregando e junto dando
A doentes saúde, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e não duvida
Poder tirá-lo a terra, com possantes
Forças de homens, de engenhos, de alifantes.

111
«Era tão grande o peso do madeiro,
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta:
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e facilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo,
Que ficasse aos futuros por exemplo.

112
«Sabia bem que, se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo í  voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoroçada;
Os Brí¢menes o têm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Hão medo de perder autoridade.

113
«São estes sacerdotes dos Gentios,
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não há, tão dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.

114
«Um filho próprio mata, e logo acusa
De homicí­dio Tomé, que era inocente;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no í  morte brevemente.
O Santo, que não vê milhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faça um milagre dos maiores.

115
«O corpo morto manda ser trazido,
Que ressucite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moço vivo, erguido,
Em nome de Jesu crucificado;
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.

116
«Este milagre fez tamanho espanto,
Que o Rei se banha logo na água santa,
E muitos após ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brí¢menes se encheram de ódio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.

117
«Um dia que pregando ao povo estava,
Fingiram entre a gente um arruí­do.
Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Céu subido.
A multidão das pedras, que voava,
No Santo dá, já a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.

118
«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choraram as almas que vestindo
Se iam da santa Fé que lhe insinaste;
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Te recebem na Glória, que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peças,
Com que os teus Lusitanos favoreças.

119
«E vós outros que os nomes usurpais
De mandados de Deus, como Tomé,
Dizei: se sois mandados, como estais
Sem irdes a pregar a Santa Fé?
Olhai que, se sois sal e vos danais
Na pátria, onde profeta ninguém é,
Com que se salgarão, em nossos dias,
(Infiéis deixo) tantas heresias?

120
«Mas passo esta matéria perigosa,
E tornemos í  costa debuxada.
Já com esta cidade tão famosa
Se faz curva a Gangética enseada.
Corre Narsinga, rica e poderosa;
Corre Orixá, de roupas abastada;
No fundo da enseada, o ilustre rio
Ganges vem ao salgado senhorio;

121
«Ganges, no qual os seus habitadores
Morrem banhados, tendo por certeza
Que, inda que sejam grandes pecadores,
Esta água santa os lava e dá pureza.
Vê Chatigão, cidade das milhores
De Bengala, proví­ncia que se preza
De abundante; mas olha que está posta
Pera o Austro, daqui virada, a costa.

122
«Olha o reino Arracão; olha o assento
De Pegu, que já monstros povoaram,
Monstros filhos do feio ajuntamento
Dhí¼a mulher e um cão, que sós se acharam.
Aqui soante arame no instrumento
Da geração costumam, o que usaram
Por manha da Rainha que, inventando
Tal uso, deitou fora o error nefando.

123
«Olha Tavai cidade, onde começa
De Sião largo o império tão comprido;
Tenassari, Quedá, que é só cabeça
Das que pimenta ali têm produzido.
Mais avante fareis que se conheça
Malaca por empório enobrecido,
Onde toda a proví­ncia do Mar Grande
Suas mercadorias ricas mande.

124
«Dizem que desta terra co as possantes
Ondas o mar, entrando, dividiu
A nobre ilha Samatra, que já de antes
Juntas ambas a gente antiga viu.
Quersoneso foi dita; e, das prestantes
Veias de ouro que a terra produziu,
"íurea" por epiteto, lhe ajuntaram;
Alguns que fosse Ofir imaginaram.

125
«Mas, na ponta da terra, Singapura
Verás, onde o caminho í s naus se eatreita;
Daqui tornando a costa í  Cinosura,
Se encurva, e pera a Aurora se endireita.
Vês Pam, Patane, reinos e a longura
De Sião, que estes e outros mais sujeita?
Olha o rio Menão, que se derrama
Do grande lago que Chiamai se chama.

126
«Vês neste grão terreno os diferentes
Nomes de mil naçíµes, nunca sabidas:
Os Laos, em terra e número potentes;
Avás, Bramás, por serras tão compridas;
Vê nos remotos montes outras gentes,
Que Guéus se chamam, de selvages vidas;
Humana carne comem, mas a sua
Pintam com ferro ardente, usança crua.

127
«Vês, passa por Camboja Mecom rio,
Que "capitão das águas" se interpreta;
Tantas recebe de outro, só no Estio,
Que alaga os campos largos e inquieta;
Tem as enchentes quais o Nilo frio.
A gente dele crê, como indiscreta,
Que pena e glória tem, despois de morte,
Os brutos animais de toda sorte.

128
«Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.

129
«Vês, corre a costa que Champá se chama,
Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
Vés, Cauchichina está, de escura fama,
E de Ainão vê a incógnita enaeada;
Aqui o soberbo Império, que se afama
Com terras e riqueza não cuidada,
Da China corre, e ocupa o senhorio
Desde o Trópico ardente ao Cinto frio.

130
«Olha o muro e edifí­cio nunca crido,
Que entre um império e o outro se edifica,
Certí­ssimo sinal e conhecido,
Da potência real, soberba e rica.
Estes, o Rei que tem, não foi nacido
Prí­ncipe, nem dos pais aos filhos fica,
Mas elegem aquele que é famoso
Por cavaleiro, sábio e virtuoso.

131
«Inda outra muita terra se te esconde,
Até que venha o tempo de mostrar-se.
Mas não deixes no mar as Ilhas onde
A Natureza quis mais afamar-se;
Esta, meia escondida, que responde
De longe í  China, donde vem buscar-se,
í‰ Japão, onde nace a prata fina,
Que ilustrada será co a Lei divina.

132
«Olha cá pelos mares do Oriente
As infinitas Ilhas espalhadas;
Vê Tidore e Ternate, co fervente
Cume, que lança as flamas ondeadas.
As árvores verás do cravo ardente,
Co sangue Português inda compradas.
Aqui há as áureas aves, que não decem
Nunca í  terra e só mortas aparecem.

133
«Olha de Banda as Ilhas, que se esmaltam
Da vária cor que pinta o roxo fruto;
As aves variadas, que ali saltam,
Da verde noz tomando seu tributo.
Olha também Bornéu, onde não faltam
Lágrimas no licor coalhado e enxuto
Das árvores, que cí¢nfora é chamado,
Com que da Ilha o nome é celebrado.

134
«Ali também Timor, que o lenho manda
Sí¢ndalo, salutí­fero e cheiroso.
Olha a Sunda, tão larga, que hí¼a banda
Esconde pera o Sul dificultoso;
A gente do sertão que as terras anda,
Um rio diz que tem miraculoso,
Que, por onde ele só, sem outro, vai,
Converte em pedra o pau que nele cai.

135
«Vê naquela que o tempo tornou Ilha,
Que também flamas trémulas vapora,
A fonte que óleo mana, e a maravilha
Do cheiroso licor que o tronco chora,
Cheiroso, mais que quanto estila a filha
De Ciniras na Arábia, onde ela mora;
E vê que, tendo quanto as outras têm,
Branda seda e fino ouro dá também.

136
«Olha, em Ceilão, que o monte se alevanta
Tanto, que as nuvens passa ou a vista engana;
Os naturais o têm por cousa santa,
Pola pedra onde está a pegada humana.
Nas ilhas de Maldiva nace a pranta
No profundo das águas, soberana,
Cujo pomo contra o veneno urgente
í‰ tido por antí­doto excelente.

137
«Verás defronte estar do Roxo Estreito
Socotorá, co amaro aloé famosa;
Outras ilhas, no mar também sujeito
A vós, na costa de ífrica arenosa,
Onde sai do cheiro mais perfeito
A massa, ao mundo oculta e preciosa.
De São Lourenço vê a Ilha afamada,
Que Madagáscar é dalguns chamada.

138
«Eis aqui as novas partes do Oriente
Que vós outros agora ao mundo dais,
Abrindo a porta ao vasto mar patente,
Que com tão forte peito navegais.
Mas é também razão que, no Ponente,
Dum Lusitano um feito inda vejais,
Que, de seu Rei mostrando-se agravado,
Caminho há-de fazer nunca cuidado.

139
«Vedes a grande terra que contina
Vai de Calisto ao seu contrário Pólo,
Que soberba a fará a luzente mina
Do metal que a cor tem do louro Apolo.
Castela, vossa amiga, será dina
De lançar-lhe o colar ao rudo colo.
Várias proví­ncias tem de várias gentes,
Em ritos e costumes, diferentes.

140
«Mas cá onde mais se alarga, ali tereis
Parte também, co pau vermelho nota;
De Santa Cruz o nome lhe poreis;
Descobri-la-á a primeira vossa frota.
Ao longo desta costa, que tereis,
Irá buscando a parte mais remota
O Magalhães, no feito, com verdade,
Português, porém não na lealdade.

141
«Dês que passar a via mais que meia
Que ao Antárctico Pólo vai da Linha,
Dhí¼a estatura quase giganteia
Homens verá, da terra ali vizinha;
E mais avante o Estreito que se arreia
Co nome dele agora, o qual caminha
Pera outro mar e terra que fica onde
Com suas frias asas o Austro a esconde.

142
«Até aqui, Portugueses, concedido
Vos é saberdes os futuros feitos
Que, pelo mar, que já deixais sabido,
Virão fazer baríµes de fortes peitos.
Agora, pois que tendes aprendido
Trabalhos que vos façam ser aceitos
í€s eternas esposas e fermosas,
Que coroas vos tecem gloriosas,

143
«Podeis-vos embarcar, que tendes vento
E mar tranquilo, pera a pátria amada.»
Assi lhe disse; e logo movimento
Fazem da Ilha alegre e namorada.
Levam refresco e nobre mantimento;
Levam a companhia desejada
Das Ninfas, que hão-de ter eternamente,
Por mais tempo que o Sol o Mundo aquente.

144
Assi foram cortando o mar sereno,
Com vento sempre manso e nunca irado,
Até que houveram vista do terreno
Em que naceram, sempre desejado.
Entraram pela foz do Tejo ameno,
E a sua pátria e Rei temido e amado
O prémio e glória dão por que mandou,
E com tí­tulos novos se ilustrou.

145
No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhí¼a austera, apagada e vil tristeza.

146
E não sei por que influxo do Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os í¢nimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio poato,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.

147
Olhai que ledos vão, por várias vias,
Quais rompentes leíµes e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias,
A ferro, a fogo, a setas e pelouros,
A quentes regiíµes, a plagas frias,
A golpes de Idolatras e de Mouros,
A perigos incógnitos do mundo,
A naufrágios, a pexes, ao profundo.

148
Por vos servir, a tudo aparelhados;
De vós tão longe, sempre obedientes
A quaisquer vossos ásperos mandados,
Sem dar reposta, prontos e contentes.
Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido
Que vencedor vos façam, não vencido.

149
Favorecei-os logo, e alegrai-os
Com a presença e leda humanidade;
De rigorosas leis desalivai-os,
Que assi se abre o caminho í  santidade.
Os mais exprimentados levantai-os,
Se, com a experiência, têm bondade
Pera vosso conselho, pois que sabem
O como, o quando, e onde as cousas cabem.

150
Todos favorecei em seus ofí­cios,
Segundo têm das vidas o talento;
Tenham Religiosos exercí­cios
De rogarem por vosso regimento,
Com jejuns, disciplina, pelos ví­cios
Comuns; toda ambição terão por vento,
Que o bom Religioso verdadeiro
Glória vã não pretende nem dinheiro.

151
Os Cavaleiros tende em muita estima,
Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não somente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente;
Pois aqueles que a tão remoto clima
Vos vão servir, com passo diligente,
Dous inimigos vencem: uns, os vivos,
E (o que é mais) os trabalhos excessivos.

152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, ítalos e Ingleses,
Possam dizer que são pera mandados,
Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só de exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses,
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.

153
De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Aní­bal escarnecia,
Quando das artes bélicas, diante
Dele, com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.

154
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo,
De vós não conhecido nem sonhado?
Da boca dos pequenos sei, contudo,
Que o louvor sai í s vezes acabado.
Nem me falta na vida honesto estudo,
Com longa experiência misturado,
Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.

155
Pera servir-vos, braço í s armas feito;
Pera cantar-vos, mente í s Musas dada;
Só me falece ser a vós aceito,
De quem virtude deve ser prezada.
Se me isto o Céu concede, e o vosso peito
Dina empresa tomar de ser cantada,
Como a pressaga mente vaticina,
Olhando a vossa inclinação divina,

156
Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante,
Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante.
A minha já estimada e leda Musa
Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem í  dita de Aquiles ter enveja.


Autor: Luís Vaz de Camões

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 11




 


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