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Canto X (Parte II)




51
«A nobre ilha também de Taprobana,
Já pelo nome antigo tão famosa,
Quanto agora soberba e soberana
Pela cortiça cálida, cheirosa,
Dela dará tributo í  Lusitana
Bandeira, quando, excelsa e gloriosa,
Vencendo, se erguerá na torre erguida,
Em Columbo, dos próprios tão temida.

52
«Também Sequeira, as ondas Eritreias
Dividindo, abrirá novo caminho
Pera ti, grande Império, que te arreias
De seres de Candace e Sabá ninho.
Maçuá, com cisternas de água cheias,
Verá, e o porto Arquico, ali vizinho;
E fará descobrir remotas Ilhas,
Que dão ao mundo novas maravilhas.

53
«Virá despois Meneses, cujo ferro
Mais na ífrica, que cá, terá provado;
Castigará de Ormuz soberba o erro,
Com lhe fazer tributo dar dobrado.
Também tu, Gama, em pago do desterro
Em que estás e serás inda tornado,
Cos tí­tulos de Conde e de honras nobres
Virás mandar a terra que descobres.

54
«Mas aquela fatal necessidade
De quem ninguém se exime dos humanos,
Ilustrado co a Régia dignidade,
Te tirará do mundo e seus enganos.
Outro Meneses logo, cuja idade
í‰ maior na prudência que nos anos,
Governará; e fará o ditoso Henrique
Que perpétua memória dele fique.

55
«Não vencerá somente os Malabares,
Destruindo Panane com Coulete,
Cometendo as bombardas, que, nos ares,
Se vingam só do peito que as comete;
Mas com virtudes, certo, singulares,
Vence os imigos da alma todos sete;
De cobiça triunfa e incontinência,
Que em tal idade é suma de excelência.

56
«Mas, despois que as Estrelas o chamarem,
Sucederás, ó forte Mascarenhas;
E, se injustos o mando te tomarem,
Prometo-te que fama eterna tenhas.
Pera teus inimigos confessarem
Teu valor alto, o Fado quer que venhas
A mandar, mais de palmas coroado,
Que de fortuna justa acompanhado.

57
«No reino de Bintão, que tantos danos
Terá a Malaca, muito tempo, feitos,
Num só dia as injúrias de mil anos
Vingarás, co valor de ilustres peitos.
Trabalhos e perigos inumanos,
Abrolhos férreos mil, passos estreitos,
Tranqueiras, baluartes, lanças, setas:
Tudo fico que rompas e sometas.

58
«Mas na índia, cobiça e ambição,
Que claramente píµe aberto o rosto
Contra Deus e Justiça, te farão
Vitupério nenhum, mas só desgosto.
Quem faz injúria vil e sem razão,
Com forças e poder em que está posto,
Não vence, que a vitória verdadeira
í‰ saber ter justiça nua e inteira.

59
«Mas, contudo, não nego que Sampaio
Será, no esforço, ilustre e assinalado,
Mostrando-se no mar um fero raio,
Que de inimigos mil verá coalhado.
Em Bacanor fará cruel ensaio
No Malabar, pera que, amedrontado,
Despois a ser vencido dele venha
Cutiale, com quanta armada tenha.

60
«E não menos de Dio a fera frota,
Que Chaul temerá, de grande e ousada,
Fará, co a vista só, perdida e rota,
Por Heitor da Silveira e destroçada,
Por Heitor Português, de quem se nota
Que na costa Cambaica, sempre armada,
Será aos Guzarates tanto dano,
Quanto já foi aos Gregos o Troiano.

61
«A Sampaio feroz sucederá
Cunha, que longo tempo tem o leme;
De Chale as torres altas erguerá,
Enquanto Dio ilustre dele treme;
O forte Baçaim se lhe dará,
Não sem sangue, porém, que nele geme
Melique, porque a força só de espada
A tranqueira soberba vê tomada.

62
«Trás este vem Noronha, cujo auspí­cio
De Dio os Rumes feros afugenta;
Dio, que o peito e bélico exercí­cio
De António da Silveira bem sustenta.
Fará em Noronha a morte o usado ofí­cio,
Quando um teu ramo, ó Gama, se exprimenta
No governo do Império, cujo zelo
Com medo o Roxo Mar fará amarelo.

63
«Das mãos do teu Estêvão vem tomar
As rédeas um, que já será ilustrado
No Brasil, com vencer e castigar
O pirata Francês, ao mar usado.
Despois, Capitão-mor do índico mar,
O muro de Damão, soberbo e armado,
Escala, e primeiro entra a porta aberta,
Que fogo e frechas mil terão coberta.

64
«A este o Rei Cambaico soberbí­ssimo
Fortaleza dará na rica Dio,
Por que contra o Mogor poderosí­ssimo
Lhe ajude a defender o senhorio.
Despois irá com peito esforçadí­ssimo
A tolher que não passe o Rei gentio
De Calecu, que assi com quantos veio
O fará retirar, de sangue cheio.

65
«Destruirá a cidade Repelim,
Pondo o seu Rei, com muitos, em fugida;
E despois, junto ao Cabo Comorim,
Hí¼a façanha faz esclarecida:
A frota principal do Samorim,
Que destruir o mundo não duvida,
Vencerá co furor do ferro e fogo;
Em si verá Beadala o Márcio jogo.

66
«Tendo assi limpa a índia dos imigos,
Virá despois com ceptro a governá-la,
Sem que ache resistência nem perigos,
Que todos tremem dele e nenhum fala.
Só quis provar os ásperos castigos
Baticalá, que vira já Beadala.
De sangue e corpos mortos ficou cheia
E de fogo e trovíµes desfeita e feia.

67
«Este será Martinho, que de Marte
O nome tem co as obras derivado;
Tanto em armas ilustre em toda parte,
Quanto, em conselho, sábio e bem cuidado.
Suceder-lhe-á ali Castro, que o estandarte
Português terá sempre levantado,
Conforme sucessor ao sucedido,
Que um ergue Dio, outro o defende erguido.

68
«Persas feroces, Abassis e Rumes,
Que trazido de Roma o nome têm,
Vários de gestos, vários de custumes
(Que mil naçíµes ao cerco feras vêm),
Farão dos Céus ao mundo vãos queixumes,
Porque uns poucos a terra lhe detêm.
Em sangue Português juram, descridos,
De banhar os bigodes retorcidos.

69
«Basiliscos medonhos e leíµes,
Trabucos feros, minas encobertas,
Sustenta Mascarenhas cos baríµes
Que tão ledos as mortes têm por certas;
Até que, nas maiores opressíµes,
Castro libertador, fazendo ofertas
Das vidas de seus filhos, quer que fiquem
Com fama eterna, e a Deus se sacrifiquem.

70
«Fernando, um deles, ramo da alta pranta,
Onde o violento fogo, com ruí­do,
Em pedaços os muros no ar levanta,
Será ali arrebatado e ao Céu subido.
ílvaro, quando o Inverno o mundo espanta
E tem o caminho húmido impedido,
Abrindo-o, vence as ondas e os perigos,
Os ventos e despois os inimigos.

71
«Eis vem despois o pai, que as ondas corta,
Co restante da gente Lusitana,
E com força e saber, que mais importa,
Batalha dá felice e soberana.
Uns, paredes subindo, escusam porta;
Outros a abrem na fera esquadra insana;
Feitos farão tão dinos de memória,
Que não caibam em verso ou larga história.

72
«Este, despois, em campo se apresenta,
Vencedor forte e intrépido, ao possante
Rei de Cambaia, e a vista lhe amedrenta
Da fera multidão quadrupedante.
Não menos suas terras mal sustenta
O Hidalcão, do braço triunfante
Que castigando vai Dabul na costa;
Nem lhe escapou Pondá, no sertão posta.

73
«Estes e outros baríµes, por várias partes,
Dinos todos de fama e maravilha,
Fazendo-se na terra bravos Martes,
Virão lograr os gostos desta Ilha,
Varrendo triunfantes estandartes
Pelas ondas que corta a aguda quilha;
E acharão estas Ninfas e estas mesas,
Que glórias e honras são de árduas empresas.»

74
«Assi cantava a Ninfa; e as outras todas,
Com sonoroso aplauso, vozes davam,
Com que festejam as alegres vodas
Que com tanto prazer se celebravam.
«Por mais que da Fortuna andem as rodas
(Ní¼a cí´nsona voz todas soavam),
Não vos hão-de faltar, gente famosa,
Honra, valor e fama gloriosa.»

75
«Despois que a corporal necessidade
Se satisfez do mantimento nobre,
E na harmonia e doce suavidade
Viram os altos feitos que descobre,
Tétis, de graça ornada e gravidade,
Pera que com mais alta glória dobre
As festas deste alegre e claro dia,
Pera o felice Gama assi dizia:

76
«Faz-te mercê, barão, a Sapiência
Suprema de, cos olhos corporais,
Veres o que não pode a vã ciência
Dos errados e mí­seros mortais.
Sigue-me firme e forte, com prudência,
Por este monte espesso, tu cos mais.»
Assi lhe diz, e o guia por um mato
írduo, difí­cil, duro a humano trato.

77
Não andam muito, que no erguido cume
Se acharam, onde um campo se esmaltava
De esmeraldas, rubis, tais que presume
A vista que divino chão pisava.
Aqui um globo vêem no ar, que o lume
Clarí­ssimo por ele penetrava,
De modo que o seu centro está evidente,
Como a sua superfí­cie, claramente.

78
Qual a matéria seja não se enxerga,
Mas enxerga-se bem que está composto
De vários orbes, que a Divina verga
Compí´s, e um centro a todos só tem posto.
Volvendo, ora se abaxe, agora se erga,
Nunca se ergue ou se abaxa, e um mesmo rosto
Por toda a parte tem; e em toda a parte
Começa e acaba, enfim, por divina arte,

79
Uniforme, perfeito, em si sustido,
Qual, enfim, o Arquetipo que o criou.
Vendo o Gama este globo, comovido
De espanto e de desejo ali ficou.
Diz-lhe a Deusa: «O transunto, reduzido
Em pequeno volume, aqui te dou
Do Mundo aos olhos teus, pera que vejas
Por onde vás e irás e o que desejas.

80
«Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea e elemental, que fabricada
Assi foi do Saber, alto e profundo,
Que é sem princí­pio e meta limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e sua superfí­cie tão limada,
í‰ Deus; mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende.

81
«Este orbe que, primeiro, vai cercando
Os outros mais pequenos que em si tem,
Que está com luz tão clara radiando,
Que a vista cega e a mente vil também,
Empí­reo se nomeia, onde logrando
Puras almas estão daquele Bem
Tamanho, que Ele só se entende e alcança,
De quem não há no mundo semelhança.

82
«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pí´s o engenho vosso.

83
«E também, porque a Santa Providência,
Que em Júpiter aqui se representa,
Por espí­ritos mil, que têm prudência,
Governa o Mundo todo que sustenta
(Insina-lo a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta):
Os que são bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;

84
«Quer logo aqui a pintura, que varia,
Agora deleitando, ora ensinando,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses já dera, fabulando;
Que os Anjos de celeste companhia
Deuses o sacro verso está chamando;
Nem nega que esse nome preminente
Também aos maus se dá, mas falsamente.

85
«Enfim que o sumo Deus, que por segundas
Causas obra no Mundo, tudo manda.
E, tornando a contar-te das profundas
Obras da Mão Divina veneranda;
Debaxo deste cí­rculo, onde as mundas
Almas divinas gozam, que não anda,
Outro corre, tão leve e tão ligeiro,
Que não se enxerga: é o Móbile primeiro.

86
«Com este rapto e grande movimento
Vão todos os que dentro tem no seio;
Por obra deste, o Sol, andando a tento,
O dia e noite faz, com curso alheio.
Debaxo deste leve anda outro lento,
Tão lento e sojugado a duro freio,
Que, enquanto Febo, de luz nunca escasso,
Duzentos cursos faz, dá ele um passo.

87
«Olha estoutro debaxo, que esmaltado
De corpos lisos anda e radiantes,
Que também nele tem curso ordenado
E nos seus axes correm cintilantes.
Bem vês como se veste e faz ornado
Co largo Cinto de ouro, que estelantes
Animais doze traz afigurados,
Apousentos de Febo limitados.

88
«Olha, por outras partes, a pintura
Que as estrelas fulgentes vão fazendo:
Olha a Carreta, atenta a Cinosura,
Andrómeda e seu pai, e o Drago horrendo.
Vê de Cassiopeia a fermosura
E do Orionte o gesto turbulento;
Olha o Cisne morrendo que suspira,
A Lebre e os Cães, a Nau e a doce Lira.

89
«Debaxo deste grande Firmamento,
Vês o céu de Saturno, Deus antigo;
Júpiter logo faz o movimento,
E Marte abaxo, bélico inimigo;
O claro Olho do céu, no quarto assento,
E Vénus, que os amores traz consigo,
Mercúrio, de eloquência soberana;
Com três rostos, debaxo vai Diana.

90
«Em todos estes orbes, diferente
Curso verás, nuns grave e noutros leve;
Ora fogem do Centro longamente,
Ora da Terra estão caminho breve,
Bem como quis o Padre omnipotente,
Que o fogo fez e o ar, o vento e neve,
Os quais verás que jazem mais a dentro
E tem co Mar a Terra por seu centro.

91
«Neste centro, pousada dos humanos,
Que não somente, ousados, se contentam
De sofrerem da terra firme os danos,
Mas inda o mar instábil exprimentam,
Verás as várias partes, que os insanos
Mares dividem, onde se apousentam
Várias naçíµes, que mandam vários Reis,
Vários costumes seus e várias leis.

92
«Vês Europa Cristã, mais alta e clara
Que as outras em polí­cia e fortaleza.
Vês ífrica, dos bens do mundo avara,
Inculta e toda cheia de bruteza,
Co Cabo que até qui se vos negara,
Que assentou pera o Austro a Natureza.
Olha essa terra toda, que se habita
Dessa gente sem Lei, quase infinita.

93
«Vê do Benomotapa o grande império,
De selvática gente, negra e nua,
Onde Gonçalo morte e vitupério
Padecerá, pola Fé santa sua.
Nace por este incógnito Hemispério
O metal por que mais a gente sua.
Vê que do lago donde se derrama
O Nilo, também vindo está Cuama.

94
«Olha as casas dos negros, como estão
Sem portas, confiados, em seus ninhos,
Na justiça real e defensão
E na fidelidade dos vizinhos;
Olha deles a bruta multidão,
Qual bando espesso e negro de estorninhos,
Combaterá em Sofala a fortaleza,
Que defenderá Nhaia com destreza.

95
«Olha lá as alagoas donde o Nilo
Nace, que não souberam os antigos;
Vê-lo rega, gerando o crocodilo,
Os povos Abassis, de Cristo amigos;
Olha como sem muros (novo estilo)
Se defendem milhor dos inimigos.
Vê Méroe, que ilha foi de antiga fama,
Que ora dos naturais Nobá se chama.

96
«Nesta remota terra um filho teu
Nas armas contra os Turcos será claro;
Há-de ser Dom Cristóvão o nome seu;
Mas contra o fim fatal não há reparo.
Vê cá a costa do mar, onde te deu
Melinde hospí­cio gasalhoso e caro;
O Rapto rio nota, que o romance
Da terra chama Obi; entra em Quilmance.

97
«O Cabo vê já Arómata chamado,
E agora Guardafu, dos moradores,
Onde começa a boca do afamado
Mar Roxo, que do fundo toma as cores.
Este como limite está lançado
Que divide ísia de ífrica; e as milhores
Povoaçíµes que a parte ífrica tem
Maçuá são, Arquico e Suamquém.

98
«Vês o extremo Suez, que antigamente
Dizem que foi dos Héroas a cidade
(Outros dizem que Arsí­noe), e ao presente
Tem das frotas do Egipto a potestade.
Olha as águas, nas quais abriu patente
Estrada o grão Mousés na antiga idade.
ísia começa aqui, que se apresenta
Em terras grande, em reinos opulenta.

99
«Olha o monte Sinai, que se enobrece
Co sepulcro de Santa Caterina;
Olha Toro e Gidá, que lhe falece
ígua das fontes, doce e cristalina;
Olha as portas do Estreito, que fenece
No reino da seca ídem, que confina
Com a serra de Arzira, pedra viva,
Onde chuva dos céus se não deriva.

100
«Olha as Arábias três, que tanta terra
Tomam, todas da gente vaga e baça,
Donde vêm os cavalos pera a guerra,
Ligeiros e feroces, de alta raça;
Olha a costa que corre, até que cerra
Outro Estreito de Pérsia, e faz a traça
O Cabo que co nome se apelida
Da cidade Fartaque, ali sabida.



Autor: Luís Vaz de Camões

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 11




 


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