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Canto VIII (Parte II)




51
Isto dito, ele e o sono se despede.
Tremendo fica o atónito Agareno;
Salta da cama, lume aos servos pede,
Lavrando nele o férvido veneno.
Tanto que a nova luz que ao Sol precede
Mostrara o rosto angélico e sereno,
Convoca os principais da torpe Seita,
Aos quais do que sonhou dá conta estreita.

52
Diversos pareceres e contrários
Ali se dão, segundo o que entendiam;
Astutas traiçíµes, enganos vários,
Perfí­dias, inventavam e teciam;
Mas, deixando conselhos temerários,
Destruição da gente pretendiam,
Por manhas mais sutis e ardis milhores,
Com peitas adquirindo os regedores.

53
Com peitas, ouro e dádivas secretas
Conciliam da terra os principais;
E com razíµes notáveis e discretas
Mostram ser perdição dos naturais,
Dizendo que são gentes inquietas,
Que, os mares discorrendo Ocidentais,
Vivem só de piráticas rapinas,
Sem Rei, sem Leis humanas ou divinas.

54
Oh! Quanto deve o Rei que bem governa
De olhar que os conselheiros ou privados,
De consciência e de virtude interna
E de sincero amor sejam dotados!
Porque, como estê posto na superna
Cadeira, pode mal dos apartados
Negócios ter notí­cia mais inteira,
Do que lhe der a lí­ngua conselheira.

55
Nem tão pouco direi que tome tanto
Em grosso a consciência limpa e certa,
Que se enleve num pobre e humilde manto,
Onde ambição acaso ande encoberta.
E, quando um bom em tudo é justo e santo,
E em negócios do mundo pouco acerta,
Que mal co eles poderá ter conta
A quieta inocência, em só Deus pronta.

56
Mas aqueles avaros Catuais,
Que o Gentí­lico povo governavam,
Induzidos das gentes infernais,
O Português despacho dilatavam.
Mas o Gama, que não pretende mais,
De tudo quanto os Mouros ordenavam,
Que levar a seu Rei um sinal certo
Do mundo que deixava descoberto,

57
Nisto trabalha só; que bem sabia
Que, despois que levasse esta certeza,
Armas e naus e gente mandaria
Manuel, que exercita a suma alteza,
Com que a seu jugo e Lei someteria
Das terras e do mar a redondeza;
Que ele não era mais que um diligente
Descobridor das terras do Oriente.

58
Falar ao Rei gentio determina,
Por que com seu despacho se tornasse,
Que já sentia em tudo da malina
Gente impedir-se quanto desejasse.
O Rei, que da notí­cia falsa e indina
Não era de espantar se se espantasse,
Que tão crédulo era em seus agouros,
E mais sendo afirmados pelos Mouros,

59
Este temor lhe esfria o baixo peito.
Por outra parte, a força da cobiça,
A quem por natureza está sujeito,
Um desejo imortal lhe acende e atiça;
Que bem vê que grandí­ssimo proveito
Fará, se, com verdade e com justiça,
O contrato fizer, por longos anos,
Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.

60
Sobre isto, nos conselhos que tomava,
Achava mui contrários pareceres;
Que naqueles com quem se aconselhava
Executa o dinheiro seus poderes.
O grande Capitão chamar mandava,
A quem, chegado, disse: «Se quiseres
Confessar-me a verdade limpa e nua,
Perdão alcançarás da culpa tua.

61
«Eu sou bem informado que a embaxada
Que de teu Rei me deste, que é fingida;
Porque nem tu tens Rei, nem pátria amada;
Mas vagabundo vás passando a vida.
Que quem da Hispéria última alongada,
Rei ou senhor, de insí¢nia desmedida,
Há-de vir cometer, com naus e frotas,
Tão incertas viagens e remotas?

62
«E, se de grandes Reinos poderosos
O teu Rei tem a régia majestade,
Que presentes me trazes valerosos,
Sinais de tua incógnita verdade?
Com peças e díµes altos, sumptuosos,
Se lia dos Reis altos a amizade;
Que sinal nem penhor não é bastante
As palavras dum vago navegante.

63
«Se porventura vindes desterrados,
Como já foram homens de alta sorte,
Em meu Reino sereis agasalhados,
Que toda a terra é pátria pera o forte;
Ou, se piratas sois, ao mar usados,
Dizei-mo sem temor de infí¢mia ou morte,
Que, por se sustentar, em toda idade
Tudo faz a vital necessidade.»

64
Isto assi dito, o Gama, que já tinha
Suspeitas das insí­dias que ordenava
O Maomético ódio, donde vinha
Aquilo que tão mal o Rei cuidava,
Cí¼a alta confiança, que convinha,
Com que seguro crédito alcançava,
Que Vénus Acidália lhe influí­a,
Tais palavras do sábio peito abria:

65
«Se os antigos delitos que a malí­cia
Humana cometeu na prisca idade
Não causaram que o vaso da nequí­cia,
Açoute tão cruel da Cristandade,
Viera pí´r perpétua inimicí­cia
Na geração de Adão, co a falsidade,
í“ poderoso Rei, da torpe Seita,
Não conceberas tu tão má suspeita.

66
«Mas, porque nenhum grande bem se alcança
Sem grandes opressíµes, e em todo o feito
Segue o temor os passos da esperança,
Que em suor vive sempre de seu peito,
Me mostras tu tão pouca confiança
Desta minha verdade, sem respeito
Das razíµes em contrário que acharias,
Se não cresses a quem não crer devias.

67
«Porque, se eu de rapinas só vivesse,
Undí­vago ou da pátria desterrado,
Como crês que tão longe me viesse
Buscar assento incógnito e apartado?
Por que esperanças, ou por que interesse
Viria exprimentando o mar irado,
Os Antárcticos frios, e os ardores
Que sofrem do Carneiro os moradores?

68
«Se com grandes presentes de alta estima
O crédito me pedes do que digo,
Eu não vim mais que a achar o estranho clima
Onde a Natura pí´s teu Reino antigo;
Mas, se a Fortuna tanto me sublima,
Que eu torne í  minha pátria e Reino amigo,
Então verás o dom soberbo e rico
Com que minha tornada certifico.

69
«Se te parece inopinado feito
Que Rei da última Hispéria a ti me mande,
O coração sublime, o régio peito,
Nenhum caso possí­bil tem por grande.
Bem parece que o nobre e grão conceito
Do Lusitano espí­rito demande
Maior crédito e fé de mais alteza,
Que creia dele tanta fortaleza.

70
«Sabe que há muitos anos que os antigos
Reis nossos firmemente propuseram
De vencer os trabalhos e perigos
Que sempre í s grandes cousas se opuseram;
E, descobrindo os mares inimigos
Do quieto descanso, pretenderam
De saber que fim tinham e onde estavam
As derradeiras praias que lavavam.

71
«Conceito digno foi do ramo claro
Do venturoso Rei que arou primeiro
O mar, por ir deitar do ninho caro
O morador de Abila derradeiro.
Este, por sua indústria e engenho raro,
Num madeiro ajuntando outro madeiro,
Descobrir pí´de a parte que faz clara
De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.

72
«Crescendo cos sucessos bons primeiros
No peito as ousadias, descobriram,
Pouco e pouco, caminhos estrangeiros,
Que, uns sucedendo aos outros, prosseguiram.
De ífrica os moradores derradeiros,
Austrais, que nunca as Sete Flamas viram,
Foram vistos de nós, atrás deixando
Quantos estão os Trópicos queimando.

73
«Assi, com firme peito e com tamanho
Propósito vencemos a Fortuna,
Até que nós no teu terreno estranho
Viemos pí´r a última coluna.
Rompendo a força do lí­quido estanho,
Da tempestade horrí­fica e importuna,
A ti chegámos, de quem só queremos
Sinal que ao nosso Rei de ti levemos.

74
«Esta é a verdade, Rei; que não faria
Por tão incerto bem, tão fraco prémio,
Qual, não sendo isto assi, esperar podia,
Tão longo, tão fingido e vão proémio;
Mas antes descansar me deixaria
No nunca descansado e fero grémio
Da madre Tétis, qual pirata inico,
Dos trabalhos alheios feito rico.

75
«Assi que, ó Rei, se minha grão verdade
Tens por qual é, sincera e não dobrada,
Ajunta-me ao despacho brevidade,
Não me impidas o gosto da tornada;
E, se inda te parece falsidade,
Cuida bem na razão que está provada,
Que com claro juí­zo pode ver-se,
Que fácil é a verdade de entender-se.»

76
Atento estava o Rei na segurança
Com que provava o Gama o que dizia;
Concebe dele certa confiança,
Crédito firme, em quanto proferia;
Pondera das palavras a abastança,
Julga na autoridade grão valia,
Começa de julgar por enganados
Os Catuais corruptos, mal julgados.

77
Juntamente, a cobiça do proveito
Que espera do contrato Lusitano
O faz obedecer e ter respeito
Co Capitão, e não co Mauro engano.
Enfim ao Gama manda que direito
í€s naus se vá, e, seguro dalgum dano,
Possa a terra mandar qualquer fazenda
Que pela especiaria troque e venda.

78
Que mande da fazenda, enfim, lhe manda
Que nos Reinos Gangéticos faleça,
Se algí¼a traz idónea lá da banda
Donde a terra se acaba e o mar começa.
Já da real presença veneranda
Se parte o Capitão, pera onde peça
Ao Catual que dele tinha cargo,
Embarcação, que a sua está de largo.

79
Embarcação que o leve í s naus lhe pede,
Mas o mau Regedor, que novos laços
Lhe maquinava, nada lhe concede,
Interpondo tardanças e embaraços.
Co ele parte ao cais, por que o arrede
Longe quanto puder dos régios paços,
Onde, sem que seu Rei tenha notí­cia,
Faça o que lhe insinar sua malí­cia.

80
Lá bem longe lhe diz que lhe daria
Embarcação bastante em que partisse,
Ou que pera a luz crástina do dia
Futuro sua partida diferisse.
Já com tantas tardanças entendia
O Gama que o Gentio consentisse
Na má tenção dos Mouros, torpe e fera,
O que dele até li não entendera.

81
Era este Catual um dos que estavam
Corruptos pela Maometana gente,
O principal por quem se governavam
As cidades do Samorim potente.
Dele somente os Mouros esperavam
Efeito a seus enganos torpemente.
Ele, que no concerto vil conspira,
De suas esperanças não delira.

82
O Gama com instí¢ncia lhe requer
Que o mande pí´r nas naus, e não lhe val;
E que assi lho mandara, lhe refere,
O nobre sucessor de Perimal.
Por que razão lhe impede e lhe difere
A fazenda trazer de Portugal?
Pois aquilo que os Reis já têm mandado
Não pode ser por outrem derrogado.

83
Pouco obedece o Catual corrupto
A tais palavras; antes, revolvendo
Na fantasia algum sutil e astuto
Engano, diabólico e estupendo,
Ou como banhar possa o ferro bruto
No sangue avorrecido, estava vendo,
Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
Por que nenhí¼a í  pátria mais tornasse.

84
Que nenhum torne í  pátria só pretende
O conselho infernal dos Maometanos,
Por que não saiba nunca onde se estende
A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
Não parte o Gama, enfim, que lho defende
O Regedor dos Bárbaros profanos;
Nem sem licença sua ir-se podia,
Que as almadias todas lhe tolhia.

85
Aos brados e razíµes do Capitão
Responde o Idolatra que mandasse
Chegar í  terra as naus que longe estão,
Por que milhor dali fosse e tornasse.
«Sinal é de inimigo e de ladrão
Que lá tão longe a frota se alargasse
(Lhe diz), porque do certo e fido amigo
í‰ não temer do seu nenhum perigo.»

86
Nestas palavras o discreto Gama
Enxerga bem que as naus deseja perto
O Catual, por que com ferro e flama
Lhas assalte, por ódio descoberto.
Em vários pensamentos se derrama;
Fantasiando está remédio certo
Que desse a quanto mal se lhe ordenava.
Tudo temia; tudo, enfim, cuidava.

87
Qual o reflexo lume do polido
Espelho de aço ou de cristal fermoso,
Que, do raio solar sendo ferido,
Vai ferir noutra parte, luminoso,
E, sendo da ouciosa mão movido,
Pela casa, do moço curioso,
Anda pelas paredes e telhado,
Trémulo, aqui e ali, e dessossegado:

88
Tal o vago juí­zo flutuava
Do Gama preso, quando lhe lembrara
Coelho, se por acaso o esperava
Na praia cos batéis, como ordenara.
Logo secretamente lhe mandava
Que se tornasse í  frota, que deixara,
Não fosse salteado dos enganos
Que esperava dos feros Maometanos.

89
Tal há-de ser quem quer, co dom de Marte,
Imitar os Ilustres e igualá-los:
Voar co pensamento a toda parte,
Adivinhar perigos e evitá-los,
Com militar engenho e sutil arte,
Entender os imigos, e enganá-los,
Crer tudo, enfim; que nunca louvarei
O Capitão que diga: «Não cuidei.»

90
Insiste o Malabar em tê-lo preso,
Se não manda chegar a terra a armada.
Ele, constante e de ira nobre aceso,
Os ameaços seus não teme nada;
Que antes quer sobre si tomar o peso
De quanto mal a vil malí­cia ousada
Lhe andar armando, que pí´r em ventura
A frota de seu Rei, que tem segura.

91
Aquela noite esteve ali detido,
E parte do outro dia, quando ordena
De se tornar ao Rei; mas impedido
Foi da guarda que tinha, não pequena.
Comete-lhe o Gentio outro partido,
Temendo de seu Rei castigo ou pena,
Se sabe esta malí­cia, a qual asinha
Saberá, se mais tempo ali o detinha.

92
Diz-lhe que mande vir toda a fazenda
Vendí­bil que trazia, pera a terra,
Pera que, devagar, se troque e venda;
Que quem não quer comércio, busca guerra.
Posto que os maus propósitos entenda
O Gama, que o danado peito encerra,
Consente, porque sabe por verdade
Que compra co a fazenda a liberdade.

93
Concertam-se que o Negro mande dar
Embarcaçíµes idóneas com que venha;
Que os seus batéis não quer aventurar
Onde lhos tome o imigo, ou lhos detenha.
Partem as almadias a buscar
Mercadoria Hispana que convenha.
Escreve a seu irmão, que lhe mandasse
A fazenda com que se resgatasse.

94
Vem a fazenda, a terra, aonde logo
A agasalhou o infame Catual;
Co ela ficam ílvaro e Diogo,
Que a pudessem vender pelo que val.
Se mais que obrigação, que mando e rogo,
No peito vil o prémio pode igual,
Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
Pois o Gama soltou pela fazenda.

95
Por ela o solta, crendo que ali tinha
Penhor bastante donde recebesse
Interesse maior do que lhe vinha,
Se o Capitão mais tempo detivesse.
Ele vendo que já lhe não convinha
Tornar a terra, por que não pudesse
Ser mais retido, sendo í s naus chegado,
Nelas estar se deixa descansado.

96
Nas naus estar se deixa, vagaroso,
Até ver o que o tempo lhe descobre;
Que não se fia já do cobiçoso
Regedor, corrompido e pouco nobre.
Veja agora o juí­zo curioso
Quanto no rico, assi como no pobre,
Pode o vil interesse e sede imiga
Do dinheiro, que a tudo nos obriga.

97
A Polidoro mata o Rei Treí­cio,
Só por ficar senhor do grão tesouro;
Entra, pelo fortí­ssimo edifí­cio,
Com a filha de Acriso a chuva de ouro;
Pode tanto em Tarpeia avaro ví­cio,
Que, a troco do metal luzente e louro,
Entrega aos inimigos a alta torre,
Do qual quase afogada em pago morre.

98
Este rende munidas fortalezas;
Faz tredoros e falsos os amigos;
Este a mais nobres faz fazer vilezas,
E entrega Capitães aos inimigos;
Este corrompe virginais purezas,
Sem temer de honra ou fama alguns perigos;
Este deprava í s vezes as ciências,
Os juí­zos cegando e as consciências;

99
Este interpreta mais que sutilmente
Os textos; este faz e desfaz leis;
Este causa os perjúrios entre a gente
E mil vezes tiranos torna os Reis.
Até os que só a Deus omnipotente
Se dedicam, mil vezes ouvireis
Que corrompe este encantador, e ilude;
Mas não sem cor, contudo, de virtude.


Autor: Luís Vaz de Camões

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 14




 


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