O que você procura?
 


  

Canto IV (Parte II)




53
«Codro, por que o inimigo não vencesse,
Deixou antes vencer da morte a vida;
Régulo, por que a pátria não perdesse,
Quis mais a liberdade ver perdida.
Este, por que se Espanha não temesse,
A cativeiro eterno se convida.
Codro, nem Cúrcio, ouvido por espanto,
Nem os Décios leais fizeram tanto.

54
«Mas Afonso, do Reino único herdeiro
(Nome em armas ditoso em nossa Hespéria),
Que a soberba do Bárbaro fronteiro
Tornou em baxa e humí­lima miséria,
Fora, por certo, invicto cavaleiro,
Se não quisera ir ver a terra Ibéria.
Mas ífrica dirá ser impossí­bil
Poder ninguém vencer o Rei terrí­bil.

55
«Este pí´de colher as maçãs de ouro
Que somente o Tirí­ntio colher pí´de.
Do jugo que lhe pí´s, o bravo Mouro
A cerviz inda agora não sacode.
Na fronte a palma leva e o verde louro
Das vitórias do Bárbaro, que acode
A defender Alcácer, forte vila,
Tí¢ngere populoso e a dura Arzila.

56
«Porém elas, enfim, por força entradas,
Os muros abaxaram de diamante
í€s Portuguesas forças, costumadas
A derribarem quanto acham diante.
Maravilhas em armas, estremadas
E de escritura dinas elegante,
Fizeram cavaleiros nesta empresa,
Mais afinando a fama Portuguesa.

57
«Porém despois, tocado de ambição
E glória de mandar, amara e bela,
Vai cometer Fernando de Aragão,
Sobre o potente Reino de Castela.
Ajunta-se a inimiga multidão
Das soberbas e várias gentes dela,
Desde Cáliz ao alto Perineu,
Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.

58
«Não quis ficar nos Reinos ocioso
O mancebo Joane, e logo ordena
De ir ajudar o pai ambicioso,
Que então lhe foi ajuda não pequena.
Saiu-se, enfim, do trance perigoso,
Com fronte não torvada, mas serena,
Desbaratado o pai sanguinolento,
Mas ficou duvidoso o vencimento;

59
«Porque o filho, sublime e soberano,
Gentil, forte, animoso cavaleiro,
Nos contrários fazendo imenso dano,
Todo um dia ficou no campo inteiro.
Destarte foi vencido Octaviano,
E António vencedor, seu companheiro,
Quando daqueles que César mataram
Nos Filí­picos campos se vingaram.

60
«Porém, despois que a escura noite eterna
Afonso apousentou no Céu sereno,
O Prí­ncipe que o Reino então governa
Foi Joane segundo e Rei trezeno.
Este, por haver fama sempiterna,
Mais do que tentar pode homem terreno
Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
Os términos, que eu vou buscando agora.

61
«Manda seus mensageiros, que passaram
Espanha, França, Itália celebrada,
E lá no ilustre porto se embarcaram
Onde já foi Parténope enterrada:
Nápoles, onde os Fados se mostraram,
Fazendo-a a várias gentes subjugada,
Pola ilustrar, no fim de tantos anos,
Co senhorio de í­nclitos Hispanos.

62
«Polo mar alto Sí­culo navegam;
Vão-se í s praias de Rodes arenosas;
E dali í s ribeiras altas chegam
Que com morte de Magno são famosas.
Vão a Mênfis, e í s terras que se regam
Das enchentes Nilóticas undosas;
Sobem í  Etiópia, sobre Egipto,
Que de Cristo lá guarda o santo rito.

63
«Passam também as ondas Eritreias,
Que o povo de Israel sem nau passou;
Ficam-lhe atrás as serras Nabateias,
Que o filho de Ismael co nome ornou;
As costas odorí­feras Sabeias,
Que a mãe do belo Adónis tanto honrou,
Cercam, com toda a Arábia descoberta,
Feliz, deixando a Pétrea e a Deserta.

64
«Entram no Estreito Pérsico, onde dura
Da confusa Babel inda a memória;
Ali co Tigre o Eufrates se mistura,
Que as fontes onde nascem têm por glória.
Dali vão em demanda da água pura,
Que causa inda será de larga história,
Do Indo, pelas ondas do Oceano,
Onde não se atreveu passar Trajano.

65
«Viram gentes incógnitas e estranhas
Da índia, da Carmí¢nia e Gedrosia,
Vendo vários costumes, várias manhas,
Que cada região produze e cria.
Mas de vias tão ásperas, tamanhas,
Tornar-se facilmente não podia.
Lá morreram, enfim, e lá ficaram,
Que í  desejada pátria não tornaram.

66
«Parece que guardava o claro Céu
A Manuel e seus merecimentos
Esta empresa tão árdua, que o moveu
A subidos e ilustres movimentos;
Manuel, que a Joane sucedeu
No Reino e nos altivos pensamentos,
Logo como tomou do Reino cargo,
Tomou mais a conquista do mar largo.

67
«O qual, como do nobre pensamento
Daquela obrigação que lhe ficara
De seus antepassados (cujo intento
Foi sempre acrecentar a terra cara),
Não deixasse de ser um só momento
Conquistado, no tempo que a luz clara
Foge, e as estrelas ní­tidas que saem
A repouso convidam, quando caem.

68
«Estando já deitado no áureo leito,
Onde imaginaçíµes mais certas são,
Revolvendo contino no conceito
De seu oficio e sangue a obrigação,
Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
Sem lhe desocupar o coração;
Porque, tanto que lasso se adormece,
Morfeu em várias formas lhe aparece.

69
«Aqui se lhe apresenta que subia
Tão alto, que tocava í  prima Esfera,
Donde diante vários mundos via,
Naçíµes de muita gente, estranha e fera.
E lá bem junto donde nace o dia,
Despois que os olhos longos estendera,
Viu de antigos, longí­nquos e altos montes
Nacerem duas claras e altas fontes.

70
«Aves agrestes, feras e alimárias
Pelo monte selvático habitavam;
Mil árvores silvestres e ervas várias
O passo e o trato í s gentes atalhavam.
Estas duras montanhas, adversárias
De mais conversação, por si mostravam
Que, dês que Adão pecou aos nossos anos,
Não as romperam nunca pés humanos.

71
«Das águas se lhe antolha que saí­am,
Pera ele os largos passos inclinando,
Dous homens, que mui velhos pareciam
De aspeito, inda que agreste, venerando;
Das pontas dos cabelos lhe saí­am,
Gotas, que o corpo todo vão banhando;
A cor da pele, baça e denegrida,
A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.

72
«De ambos de dous a fronte coroada
Ramos não conhecidos e ervas tinha.
Um deles a presença traz cansada,
Como quem de mais longe ali caminha;
E assi a água, com í­mpeto alterada,
Parecia que doutra parte vinha,
Bem como Alfeu de Arcádia em Siracusa
Vai buscar os abraços de Aretusa.

73
«Este, que era o mais grave na pessoa,
Destarte pera o Rei de longe brada:
"í“ tu, a cujos reinos e coroa
Grande parte do mundo está guardada,
Nós outros, cuja fama tanto voa,
Cuja cerviz bem nunca foi domada,
Te avisamos que é tempo que já mandes
A receber de nós tributos grandes.

74
"Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
Celeste tenho o berço verdadeiro;
Estoutro é o Indo, Rei, que, nesta serra
Que vês, seu nacimento tem primeiro.
Custar-te-emos, contudo, dura guerra;
Mas, insistindo tu, por derradeiro,
Com não vistas vitórias, sem receio
A quantas gentes vês porás o freio."

75
«Não disse mais o Rio ilustre e santo,
Mas ambos desparecem num momento.
Acorda Emanuel cum novo espanto
E grande alteração de pensamento.
Estendeu nisto Febo o claro manto
Pelo escuro Hemisfério sonolento;
Veio a manhã no céu pintando as cores
De pudibunda rosa e roxas flores.

76
«Chama o Rei os senhores a conselho
E propíµe-lhe as figuras da visão;
As palavras lhe diz do santo velho,
Que a todos foram grande admiração.
Determinam o náutico aparelho,
Pera que, com sublime coração,
Vá a gente que mandar cortando os mares,
A buscar novos climas, novos ares.

77
«Eu, que bem mal cuidava que em efeito
Se pusesse o que o peito me pedia,
Que sempre grandes cousas deste jeito,
Pressago, o coração me prometia,
Não sei por que razão, por que respeito,
Ou por que bom sinal que em mi se via,
Me píµe o í­nclito Rei nas mãos a chave
Deste cometimento grande e grave.

78
«E com rogo e palavras amorosas,
Que é um mando nos Reis que a mais obriga,
Me disse: "As cousas árduas e lustrosas
Se alcançam com trabalho e com fadiga;
Faz as pessoas altas e famosas
A vida que se perde e que periga,
Que, quando ao medo infame não se rende,
Então, se menos dura, mais se estende.

79
"Eu vos tenho entre todos escolhido
Para hí¼a empresa, qual a vós se deve,
Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
O que eu sei que por mi vos será leve."
Não sofri mais, mas logo: "í“ Rei subido,
Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
í‰ tão pouco por vós, que mais me pena
Ser esta vida cousa tão pequena.

80
"Imaginai tamanhas aventuras
Quais Euristeu a Alcides inventava:
O leão Cleonéu, Harpias duras,
O porco de Erimanto, a Hidra brava,
Decer, enfim, í s sombras vãs e escuras
Onde os campos de Dite a Estige lava;
Porque a maior perigo, a mor afronta,
Por vós, ó Rei, o esprito e carne é pronta."

81
«Com mercês sumptuosas me agardece
E com razíµes me louva esta vontade,
Que a virtude louvada vive e crece
E o louvor altos casos persuade.
A acompanhar-me logo se oferece,
Obrigado de amor e de amizade,
Não menos cobiçoso de honra e fama,
O caro meu irmão Paulo da Gama.

82
«Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
De trabalhos mui grande sofredor.
Ambos são de valia e de conselho,
De experiência em armas e furor.
Já de manceba gente me aparelho,
Em que crece o desejo do valor;
Todos de grande esforço; e assi parece
Quem a tamanhas cousas se oferece.

83
«Foram de Emanuel remunerados,
Por que com mais amor se apercebessem,
E com palavras altas animados
Pera quantos trabalhos sucedessem.
Assi foram os Mí­nias ajuntados,
Pera que o Véu dourado combatessem,
Na fatí­dica Nau, que ousou primeira
Tentar o mar Euxí­nio, aventureira.

84
«E já no porto da í­nclita Ulisseia,
Com alvoroço nobre e cum desejo
(Onde o licor mistura e branca areia
Co salgado Neptuno o doce Tejo)
As naus prestes estão; e não refreia
Temor nenhum o juvenil despejo,
Porque a gente marí­tima e a de Marte
Estão pera seguir-me a toda parte.

85
«Pelas praias vestidos os soldados
De várias cores vêm e várias artes,
E não menos de esforço aparelhados
Pera buscar do mundo novas partes.
Nas fortes naus os ventos sossegados
Ondeiam os aéreos estandartes.
Elas prometem, vendo os mares largos,
De ser no Olimpo estrelas, como a de Argos.

86
«Despois de aparelhados, desta sorte,
De quanto tal viagem pede e manda,
Aparelhámos a alma pera a morte,
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
Pera o sumo Poder, que a etérea Corte
Sustenta só co a vista veneranda,
Implorámos favor que nos guiasse,
E que nossos começos aspirasse.

87
«Partimo-nos assi do santo templo
Que nas praias do mar está assentado,
Que o nome tem da terra, pera exemplo,
Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
Certifico-te, ó Rei, que, se contemplo
Como fui destas praias apartado,
Cheio dentro de dúvida e receio,
Que apenas nos meus olhos ponho o freio.

88
«A gente da cidade, aquele dia,
(Uns por amigos, outros por parentes,
Outros por ver somente) concorria,
Saudosos na vista e descontentes.
E nós, co a virtuosa companhia
De mil religiosos diligentes,
Em procissão solene, a Deus orando,
Pera os batéis viemos caminhando.

89
«Em tão longo caminho e duvidoso
Por perdidos as gentes nos julgavam,
As mulheres cum choro piadoso,
Os homens com suspiros que arrancavam.
Mães, Esposas, Irmãs, que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.

90
«Qual vai dizendo: "í“ filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mí­sera e mesquinha?
Porque de mi te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento
Onde sejas de pexes mantimento?"

91
«Qual em cabelo: "í“ doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento?"

92
«Nestas e outras palavras que diziam,
De amor e de piadosa humanidade,
Os velhos e os mininos os seguiam,
Em quem menos esforço píµe a idade.
Os montes de mais perto respondiam,
Quase movidos de alta piedade;
A branca areia as lágrimas banhavam,
Que em multidão co elas se igualavam.

93
«Nós outros, sem a vista alevantarmos
Nem a Mãe, nem a Esposa, neste estado,
Por nos não magoarmos, ou mudarmos
Do propósito firme começado,
Determinei de assi nos embarcarmos,
Sem o despedimento costumado,
Que, posto que é de amor usança boa,
A quem se aparta, ou fica, mais magoa.

94
«Mas um velho, de aspeito venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
Cum saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:

95
"í“ glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!
í“ fraudulento gosto, que se atiça
Cí¼a aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles exprimentas!

96
"Dura inquietação d'alma e da vida,
Fonte de desemparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo dina de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana;

97
"A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas,
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente ?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?

98
"Mas, ó tu, geração daquele insano
Cujo pecado e desobediência
Não somente do Reino soberano
Te pí´s neste desterro e triste ausência,
Mas inda doutro estado, mais que humano,
Da quieta e da simpres inocência,
Idade de ouro, tanto te privou,
Que na de ferro e de armas te deitou:

99
"Já que nesta gostosa vaidade
Tanto enlevas a leve Fantasia,
Já que í  bruta crueza e feridade
Puseste nome, esforço e valentia,
Já que prezas em tanta quantidade
O desprezo da vida, que devia
De ser sempre estimada, pois que já
Temeu tanto perdê-la Quem a dá:

100
"Não tens junto contigo o Ismaelita,
Com quem sempre terás guerras sobejas?
Não segue ele do Arábio a Lei maldita,
Se tu pola de Cristo só pelejas?
Não tem cidades mil, terra infinita,
Se terras e riqueza mais desejas?
Não é ele por armas esforçado,
Se queres por vitórias ser louvado?

101
"Deixas criar í s portas o inimigo,
Por ires buscar outro de tão longe,
Por quem se despovoe o Reino antigo,
Se enfraqueça e se vá deitando a longe!
Buscas o incerto e incógnito perigo
Por que a Fama te exalte e te lisonje
Chamando-te senhor com larga cópia,
Da índia, Pérsia, Arábia e de Etiópia.

102
"Oh! Maldito o primeiro que, no mundo,
Nas ondas vela pí´s em seco lenho!
Dino da eterna pena do Profundo,
Se é justa a justa Lei que sigo e tenho!
Nunca juí­zo algum, alto e profundo,
Nem cí­tara sonora ou vivo engenho,
Te dê por isso fama nem memória,
Mas contigo se acabe o nome e glória!

103
"Trouxe o filho de Jápeto do Céu
O fogo que ajuntou ao peito humano,
Fogo que o mundo em armas acendeu,
Em mortes, em desonras (grande engano!).
Quanto milhor nos fora, Prometeu,
E quanto pera o mundo menos dano,
Que a tua estátua ilustre não tivera
Fogo de altos desejos que a movera!

104
"Não cometera o moço miserando
O carro alto do pai, nem o ar vazio
O grande arquitector co filho, dando,
Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
Nenhum cometimento alto e nefando
Por fogo, ferro, água, calma e frio,
Deixa intentado a humana geração.
Mí­sera sorte! Estranha condição!"


Autor: Luís Vaz de Camões

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 15




 


Home | Política de Privacidade | Termos de Uso |    Copyright ©2019 Amo Poesias www.amopoesias.com