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Canto III (Parte III)




101
«E, vendo o Rei sublime Castelhano
A força inexpugnábil, grande e forte,
Temendo mais o fim do povo Hispano
(Já perdido hí¼a vez), que a própria morte,
Pedindo ajuda ao forte Lusitano
Lhe mandava a carí­ssima consorte,
Mulher de quem a manda, e filha amada
Daquele a cujo Reino foi mandada.

102
«Entrava a fermosí­ssima Maria
Polos paternais paços sublimados,
Lindo o gesto, mas fora de alegria,
E seus olhos em lágrimas banhados.
Os cabelos angélicos trazia
Pelos ebúrneos ombros espalhados.
Diante do pai ledo, que a agasalha,
Estas palavras tais, chorando, espalha:

103
"Quantos povos a terra produziu
De ífrica toda, gente fera e estranha,
O grão Rei de Marrocos conduziu
Pera vir possuir a nobre Espanha.
Poder tamanho junto não se viu,
Despois que o salso mar a terra banha;
Trazem ferocidade e furor tanto,
Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

104
"Aquele que me deste por marido,
Por defender sua terra amedrontada,
Co pequeno poder, oferecido
Ao duro golpe está da Maura espada,
E, se não for contigo socorrido,
Ver-me-ás dele e do Reino ser privada;
Viúva e triste e posta em vida escura,
Sem marido, sem Reino e sem ventura.

105
"Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
O corrente Muluca se congela,
Rompe toda a tardança, acude cedo
A miseranda gente de Castela.
Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
De pai o verdadeiro amor assela,
Acude e corre, pai, que, se não corres,
Pode ser que não aches quem socorres."

106
«Não de outra sorte a tí­mida Maria
Falando está, que a triste Vénus, quando
A Júpiter, seu pai, favor pedia
Pera Eneias, seu filho, navegando;
Que a tanta piedade o comovia,
Que, caí­do das mãos o raio infando,
Tudo o clemente Padre lhe concede,
Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

107
«Mas já cos esquadríµes da gente armada
Os Eborenses campos vão coalhados;
Lustra co Sol o arnês, a lança, a espada;
Vão rinchando os cavalos jaezados;
A canora trombeta embandeirada
Os coraçíµes, í  paz acostumados,
Vai í s fulgentes armas incitando,
Polas concavidades retumbando.

108
«Entre todos no meio se sublima,
Das insí­gnias Reais acompanhado,
O valeroso Afonso, que por cima
De todos leva o colo alevantado,
E somente co gesto esforça e anima
A qualquer coração amedrontado.
Assi entra nas terras de Castela
Com a filha gentil, Rainha dela.

109
«Juntos os dous Afonsos, finalmente
Nos campos de Tarifa estão defronte
Da grande multidão da cega gente,
Pera quem são pequenos campo e monte.
Não há peito tão alto e tão potente
Que de desconfiança não se afronte,
Enquanto não conheça e claro veja
Que, co braço dos seus, Cristo peleja.

110
«Estão de Agar os netos quase rindo
Do poder dos Cristãos, fraco e pequeno,
As terras como suas repartindo,
Antemão, entre o exército Agareno,
Que, com tí­tulo falso, possuindo
Está o famoso nome Sarraceno;
Assi também, com falsa conta e nua,
A nobre terra alheia chamam sua.

111
«Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
Do Rei Saul, com causa, tão temido,
Vendo o Pastor inerme estar diante,
Só de pedras e esforço apercebido,
Com palavras soberbas, o arrogante
Despreza o fraco moço mal vestido,
Que, rodeando a funda, o desengana
Quanto mais pode a Fé que a força humana!

112
«Destarte o Mouro pérfido despreza
O poder dos Cristãos, e não entende
Que está ajudado da alta Fortaleza
A quem o Inferno horrí­fico se rende.
Co ela o Castelhano, e com destreza,
De Marrocos o Rei comete e ofende;
O Português, que tudo estima em nada,
Se faz temer ao Reino de Granada.

113
«Eis as lanças e espadas retiniam
Por cima dos arneses (bravo estrago!);
Chamam, segundo as Leis que ali seguiam,
Uns Mafamede e os outros Sant'Iago.
Os feridos com grita o céu feriam,
Fazendo de seu sangue bruto lago,
Onde outros, meios mortos, se afogavam,
Quando do ferro as vidas escapavam.

114
«Com esforço tamanho estrui e mata
O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
Totalmente o poder lhe desbarata,
Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
De alcançar tal vitória tão barata
Inda não bem contente o forte braço,
Vai ajudar ao bravo Castelhano,
Que pelejando está co Mauritano.

115
«Já se ia o Sol ardente recolhendo
Pera a casa de Tétis, e inclinado
Pera o Ponente, o Véspero trazendo,
Estava o claro dia memorado,
Quando o poder do Mouro, grande e horrendo,
Em pelos fortes Reis desbaratado,
Com tanta mortindade, que a memória
Nunca no mundo viu tão grão vitória.

116
«Não matou a quarta parte o forte Mário
Dos que morreram neste vencimento,
Quando as águas co sangue do adversário
Fez beber ao exército sedento;
Nem o Peno, asperí­ssimo contrário
Do Romano poder, de nascimento,
Quando tantos matou da ilustre Roma,
Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

117
«E se tu tantas almas só pudeste
Mandar ao Reino escuro de Cocito,
Quando a santa Cidade desfizeste
Do povo pertinaz no antigo rito,
Permissão e vingança foi celeste,
E não força de braço, ó nobre Tito;
Que assi dos Vates foi profetizado,
E despois por JESU certificado.

118
«Passada esta tão próspera vitória,
Tornado Afonso í  Lusitana Terra,
A se lograr da paz com tanta glória
Quanta soube ganhar na dura guerra,
O caso triste e dino da memória,
Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mí­sera e mesquinha
Que despois de ser morta foi Rainha.

119
«Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os coraçíµes humanos tanto obriga,
Deste causa í  molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
í‰ porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

120
«Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e í s ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

121
«Do teu Prí­ncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.

122
«De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,

123
«Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pí´de sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra hí¼a fraca dama delicada?

124
«Traziam-na os horrí­ficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razíµes, í  morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saí­das só da mágoa e saudade
Do seu Prí­ncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,

125
«Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos mininos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Pera o aví´ cruel assi dizia:

126
"Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piadoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:

127
"í“ tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar hí¼a donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens í  morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.

128
"E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem pera perdê-la não fez erro.
Mas, se to assi merece esta inocência,
Píµe-me em perpétuo e mí­sero desterro,
Na Cí­tia fria ou lá na Lí­bia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.

129
"Píµe-me onde se use toda a feridade,
Entre leíµes e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrí­nseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relí­quias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste."

130
«Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra hí¼a dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?

131
«Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mí­sera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifí­cio se oferece:

132
«Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.

133
«Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó cí´ncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.

134
«Assi como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cí¢ndida e bela,
Sendo das mãos lacivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.

135
«As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.

136
«Não correu muito tempo que a vingança
Não visse Pedro das mortais feridas,
Que, em tomando do Reino a governança,
A tomou dos fugidos homicidas.
Do outro Pedro cruí­ssimo os alcança,
Que ambos, imigos das humanas vidas,
O concerto fizeram, duro e injusto,
Que com Lépido e António fez Augusto.

137
«Este castigador foi rigoroso
De latrocí­nios, mortes e adultérios;
Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
Eram os seus mais certos refrigérios.
As cidades guardando, justiçoso,
De todos os soberbos vitupérios,
Mais ladríµes, castigando, í  morte deu,
Que o vagabundo Alcides ou Teseu.

138
«Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!),
Remisso e sem cuidado algum, Fernando,
Que todo o Reino pí´s em muito aperto;
Que, vindo o Castelhano devastando
As terras sem defesa, esteve perto
De destruir-se o Reino totalmente,
Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

139
«Ou foi castigo claro do pecado
De tirar Lianor a seu marido
E casar-se co ela, de enlevado
Num falso parecer mal entendido;
Ou foi que o coração, sujeito e dado
Ao ví­cio vil, de quem se viu rendido,
Mole se fez e fraco; e bem parece
Que um baxo amor os fortes enfraquece.

140
«Do pecado tiveram sempre a pena
Muitos, que Deus o quis e permitiu:
Os que foram roubar a bela Helena,
E com ípio também Tarquino o viu.
Pois por quem David santo se condena?
Ou quem o tribo ilustre destruiu
De Benjamim? Bem claro no-lo insina
Por Sarra Faraó, Siquém por Dina.

141
«E pois, se os peitos fortes enfraquece
Um inconcesso amor desatinado,
Bem no filho de Almena se parece,
Quando em í”nfale andava transformado.
De Marco António a fama se escurece
Com ser tanto a Cleópatra afeiçoado.
Tu também, Peno próspero, o sentiste
Despois que hí¼a moça vil na Apúlia viste.

142
«Mas quem pode livrar-se, porventura,
Dos laços que Amor arma brandamente
Entre as rosas e a neve humana pura,
O ouro e o alabastro transparente?
Quem, de hí¼a peregrina fermosura,
De um vulto de Medusa propriamente,
Que o coração converte, que tem preso,
Em pedra, não, mas em desejo aceso?

143
«Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
Hí¼a suave e angélica excelência,
Que em si está sempre as almas transformando,
Que tivesse contra ela resistência?
Desculpado, por certo, está Fernando,
Pera quem tem de amor experiência;
Mas antes, tendo livre a fantasia,
Por muito mais culpado o julgaria.


Autor: Luís Vaz de Camões

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 14




 


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