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A bomba atômica


e = mc2
EINSTEIN
Deusa, visão dos céus que me domina
. . . tu que és mulher e nada mais!
("Deusa", valsa carioca)




Dos céus descendo
Meu Deus eu vejo
De pára-quedas?
Uma coisa branca
Como uma forma
De estatuária
Talvez a forma
Do homem primitivo
A costela branca!
Talvez um seio
Despregado í  lua
Talvez o anjo
Tutelar cadente
Talvez a Vênus
Nua, de clí¢mide
Talvez a inversa
Branca pirí¢mide
Do pensamento
Talvez o troço
De uma coluna
Da eternidade
Apaixonado
Não sei indago
Dizem-me todos
í‰ A BOMBA ATí”MICA



Vem-me uma angústia


Quisera tanto
Por um momento
Tê-la em meus braços
E coma ao vento
Descendo nua
Pelos espaços
Descendo branca
Branca e serena
Como um espasmo
Fria e corrupta
De longo sêmen
Da Via-Láctea
Deusa impoluta
O sexo abrupto
Cubo de prata
Mulher ao cubo
Caindo aos súcubos
Intemerata
Carne tão rija
De hormí´nios vivos
Exacerbada
Que o simples toque
Pode rompê-la
Em cada átomo
Numa explosão
Milhíµes de vezes
Maior que a força
Contida no ato
Ou que a energia
Que expulsa o feto
Na hora do parto.





II



A bomba atí´mica é triste
Coisa mais triste não há
Quando cai, cai sem vontade
Vem caindo devagar
Tão devagar vem caindo
Que dá tempo a um passarinho
De pousar nela e voar . . .



Coitada da bomba atí´mica
Que não gosta de matar!
Coitada da bomba atí´mica
Que não gosta de matar
Mas que ao matar mata tudo
Animal e vegetal
Que mata a vida da terra
E mata a vida do ar
Mas que também mata a guerra . . .
Bomba atí´mica que aterra!
Bomba atí´nita da paz!



Pomba tonta, bomba atí´mica
Tristeza, consolação
Flor purí­ssima do urí¢nio
Desabrochada no chão
Da cor pálida do hélium
E odor de rádium fatal
LÅ“lia mineral carní­vora
Radiosa rosa radical.



Nunca mais oh bomba atí´mica
Nunca em tempo algum, jamais
Seja preciso que mates
Onde houve morte demais:
Fique apenas tua imagem
Aterradora miragem
Sobre as grandes catedrais:
Guarda de uma nova era
Arcanjo insigne da paz!





III



Bomba atí´mica, eu te amo! és pequenina
E branca como a estrela vespertina
E por branca eu te amo, e por donzela
De dois milhíµes mais bélica e mais bela
Que a donzela de Orleães; eu te amo, deusa
Atroz, visão dos céus que me domina
Da cabeleira loura de platina
E das formas aerodivinais
— Que és mulher, que és mulher e nada mais!
Eu te amo, bomba atí´mica, que trazes
Numa dança de fogo, envolta em gazes
A desagregação tremenda que espedaça
A matéria em energias materiais!
Oh energia, eu te amo, igual í  massa
Pelo quadrado da velocidade
Da luz! alta e violenta potestade
Serena! Meu amor . . . desce do espaço
Vem dormir, vem dormir, no meu regaço
Para te proteger eu me encouraço
De cançíµes e de estrofes magistrais!
Para te defender, levanto o braço
Paro as radiaçíµes espaciais
Uno-me aos lí­deres e aos bardos, uno-me
Ao povo ao mar e ao céu brado o teu nome
Para te defender, matéria dura
Que és mais linda, mais lí­mpida e mais pura
Que a estrela matutina! Oh bomba atí´mica
Que emoção não me dá ver-te suspensa
Sobre a massa que vive e se condensa
Sob a luz! Anjo meu, fora preciso
Matar, com tua graça e teu sorriso
Para vencer? Tua enégica poesia
Fora preciso, oh deslembrada e fria
Para a paz? Tua fragí­lima epiderme
Em cromáticas brancas de cristais
Rompendo? Oh átomo, oh neurí´nio, oh germe
Da união que liberta da miséria!
Oh vida palpitando na matéria
Oh energia que és o que não eras
Quando o primeiro átomo incriado
Fecundou o silêncio das Esferas:
Um olhar de perdão para o passado
Uma anunciação de primaveras!


Autor: Vinícius de Moraes

Adicionado em 24/10/2008  |  Cliques: 13


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